Boca do Povo

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Salvador-BA, 09/02/2010





Dicas
07/02/2010
Reflexões

Um convite a leitura

(Alexandru Solomon)
  • O autor e o livro

Reflexões (trecho do livro: ´´Não basta sonhar``, de Alexandru Solomon)

´´Toda e qualquer semelhança com pessoas contemporâneas só poderá ser obra do acaso``.

UM. O que dá realmente um pouco de graça à nossa existência é a total falta de previsibilidade. Estamos fadados a ser permanentemente surpreendidos. Ainda bem! Ter em mãos um roteiro preciso, minucioso e infalível seria enfadonho. Por sorte, os eventos acontecem de forma diversa. Preparados para um aguaceiro, enfrentamos céu claro; prontos para um conflito, constatamos que ele não acontecerá; dispostos a enfrentar o pior, o melhor nos acolhe; e onde esperávamos encontrar flores, somos espetados implacavelmente por espinhos hostis. A realidade prima pela tei-mosia em atropelar sonhadores.

Para complicar um pouco mais, de vez em quando acertamos nas previsões. Tudo acontece, então, conforme o vaticinado, ou quase. Não adianta, portanto, pensar ou até torcer para que algo não ocorra, sabendo, no nosso íntimo, que o oposto nos é reservado, pois pode acontecer que suceda o oposto do oposto para nossa completa infelicidade. Perplexidade, corrigirão alguns. Acertar pode não ser tão surpreendente, errar nem sempre é a regra. Nem tudo está perdido. O tal atropelamento pode não acontecer.

Dizer como o filósofo: “Só sei que nada sei” nos levaria a uma espiral autodestrutiva, pois, ao admitir que nada sabemos, já demonstramos saber algo, o que não é exatamente nada saber.

O que geralmente não sabemos é onde ficaram as chaves do carro e quando cai o próximo feriadão. É provável que um ou outro meteorologista queiram levar avante este tipo de raciocínio, ao descobrir que o tempo ensolarado anunciado deu lugar a chuvas e trovoadas. Verá brotar dentro de si a vocação de estrategista avaliando o avanço temerário de uma frente fria ao encontro de um traiçoeiro centro de alta pressão ou de algum furacão devastador com nome de mulher. Possivelmente, um planejador emérito já tenha se debruçado sobre este assunto e seus desdobramentos, com o risco de sofrer, ao debruçar-se em demasia, uma grave contusão na coluna, para explicar a origem de alguma reversão de expectativas. Afinal de contas, a maior tarefa do planejador consiste em planejar, ou em arrumar uma explicação convincente para a falha do seu modelo?

Por mais instigantes que possam ser essas reflexões, nenhuma resiste ao toque insistente do rádio-relógio no exercício de sua função. Que insuportável agressão aos tímpanos para ratificar o rompimento provisório com Morfeu!

Dessa forma desumana, Alberto foi arrancado do calor das cobertas. Deixou para trás a depressão do lençol, ignorou outra depressão menor, a do travesseiro, e encaminhou-se para fora do quarto, longe de qualquer tipo de depressão. Nada como um bocejo autêntico para fazer a conexão com o presente, abandonando a relação conflituosa entre verdades evidentes e verdades ocultas. Um alarme de carro disparou. Na falta de galos, as metrópoles encontraram substitutos à altura.

A imagem de um rosto conhecido, apesar de oculto por uma camada de espuma de barbear, o acolheu. Sem ser um Narciso, aquela imagem lhe trazia conforto, mesmo porque a espuma encobria rugas incipientes. Exageros à parte, dentro dos limites de uma neutralidade suíça, estava contemplando um rosto de traços regulares. Enfim, os visíveis pareciam bem regulares.

Se o espelho possuísse dimensões maiores, teria permitido visualizar um quarentão razoavelmente alto, porém sem futuro no basquete moderno. Pelo porte, não pela idade, é importante esclarecer. Nem o rosto nem o corpo tinham sido insultados pela gordura. Cabelos e olhos castanhos completavam o quadro.

Sem ser o que se convenciona chamar de bonitão, possuía uma boa cotação junto ao sexo misteriosamente chamado de fraco, e ele sabia disso. Uma boa dose de auto-estima faz bem em qualquer circunstância, melhor ainda se administrada de manhã com o estômago vazio.

Enquanto eliminava do rosto, ainda que provisoriamente, o elo perdido com antepassados neandertalenses, pareceu-lhe, se bem que de forma imprecisa, não estar só no banheiro. Uma presença opressiva e ao mesmo tempo oculta parecia ter se instalado lá mesmo. Sentia-se vigiado. Se lhe perguntassem de onde lhe ocorrera tal pensamento, não saberia responder. Por sorte, raros são aqueles que formulam perguntas difíceis às seis da matina.

Serviço:

Editora Totalidade. www.totalidade.com.br

Disponível nas livrarias Cultura, Saraiva, Laselva e Siciliano.Também na livraria Pega-sonho (Rua Martinico Prado, 372 – Higienópolis – SP – Tel.: (11) 3668-2107).

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